| just endless - ch.01 |
I. Lua Nova, a primeira memória
Aquele rotineiro som estridente me desperta. Fecho os olhos com mais força, mesmo sabendo que isso não vai acabar com o barulho. Então minha mão preguiçosa começa a tatear as coisas em cima do criado-mudo, à procura do despertador. Desliguei o aparelho, e os números na tela revelavam que eu acordara muito cedo. Pelo jeito, o Shin andou mexendo nas minhas coisas de novo... Tudo bem, agora já era. Meu sono não volta assim tão rápido.
Que sonho mais estranho. Lembro vagamente... um homem assustador conversando com uma criança. Não creio que a criança seja eu, já que não tenho sonhos com a infância há muito tempo. E depois, eu nunca teria coragem de conversar com um cara daqueles. O que falavam mesmo? Ah, esquece.
Através do espelho, me vejo com um pente, desembaraçando os longos fios de cabelo. Talvez seja hora de aparar as pontas... quem sabe eu possa tentar um corte novo? Um acessório em cima da mesinha me chamou a atenção: uma fita azul. Veio como enfeite no embrulho do presente que recebi ontem. Tem um tom tão bonito. E já que estamos falando de mudanças...
Peguei o laço e estreei num rabo-de-cavalo. O amor deixa mesmo as pessoas mais vaidosas. Só espero que ele note!
Ontem o dia foi terrível, e hoje... também comecei com o pé esquerdo. Mal me sentei à mesa e meu pai começou a cobrar minhas obrigações - engraçado como ele tem coragem de falar comigo depois da discussão de ontem à noite. Poxa, eu tento!! E ainda me esforço muito para ter boas notas na escola e fazer a fama dos meus pais (são professores). O problema é que vocês sempre exigem mais e mais. Nunca estão satisfeitos, estão sempre procurando qualquer detalhe para reclamarem de mim. Meu pai acha que sou inútil; para minha mãe, um empecilho.
Desculpa, não posso ser perfeita como meu querido irmão. Digo, ele também tem defeitos. Vai muito mal no colégio e ficou de recuperação várias vezes, mas o sermão dele se reserva apenas aos fins de bimestre. Pelo visto, os primogênitos sempre sofrem mais.
E minha mãe só reforça o que meu pai diz. Acho que é por medo. E sempre sou eu que acabo me rendendo e pedindo desculpas no fim de toda briga. Eles nunca procuram ver pelo meu ponto de vista... só vocês podem estar certos, não é?
Acabei pensando um pouco alto. Meus pais parecem ter ouvido meus murmúrios.
- O quê? - perguntaram, prontos para revidar qualquer palavra minha.
Isso nunca aconteceu antes. Pode ser por causa da noite em claro. Pode ser porque eu estava cansada de ouvir as mesmas coisas. Enfim. O fato é que... eu explodi.
- Pra que vocês me puseram no mundo se não sabem ser pais de verdade?! - berrei, com todo o sentimento de revolta que eu guardava há tanto tempo.
Furiosa, deixei a casa e me dirigi à escola. Mas isso é sério! Eles querem que eu seja a melhor filha do mundo quando eles estão longe de ser os melhores pais. E minha mãe nunca disfarça seus comentários de como se arrepende pelo meu nascimento. Pessoas daquele jeito não merecem ser chamados de pais!! Ser pai ou mãe não é pagar contas e matrícula! Não é prestar favores e ficar cobrando depois... "Eu lavo a louça todo a dia", "sem mim, não tem comida na mesa", "eu que pago a conta do telefone".
Se fosse por mim, não voltava pra lá nunca mais.
O problema é que eu não teria para onde ir. Devido à minha extrema timidez e ao meu rendimento escolar, sou conhecida como uma mera CDF certinha. Então não tenho muitos amigos. Para ser sincera, só tenho uma amiga.
- Bom dia, Aysel! - disse ela, quando atravessei os portões do colégio.
Para ser mais sincera ainda, às vezes tenho minhas dúvidas sobre ela. Kathelin elogiou meu novo visual e em seguida...
- Ah, Aysel, sabe aquele dever de física...
Por sorte, o sinal tocou. Salva pelo gongo, eh? Toda manhã é quase a mesma coisa. Ela vem inspecionar meus cadernos, depois quase não fala comigo. Se bem que recentemente ela tem ficado ao meu lado por mais tempo.
Caminhávamos para a sala, quando Kathelin parecia me analisar.
- Você nem tá usando o pingente que te dei! - reclamou. Ah, foi ela que me deu o presente anteriormente dito. - Eu tô te dizendo, já tá na hora de trocar esse crucifixo por algo melhor... ele é tão brega, te faz parecer uma crente.
- É que o seu pingente é tão bonito... eu tava pensando em usá-lo em ocasiões especiais. - usei aquela velha desculpa.
A verdade é que o crucifixo que uso é meu pertence mais antigo, e acabou se tornando um amuleto. Ele é bem simplezinho, apesar de ser de ouro. Aliás, colares nunca combinaram comigo.
Tomamos nossos lugares. Ficamos bem afastadas depois do novo mapeamento; o professor responsável começou a desconfiar das nossas notas parecidas. Agora eu me sinto excluída como nunca.
Fiquei rabiscando uma folha em branco, ouvindo Kath e as amigas fofocando, do outro lado da sala. Ela já havia esquecido do ponto negativo que levaria do professor de Física. Talvez seja melhor assim.
Enquanto elas gargalhavam com "babados fortíssimos", eu estava pensando na tremenda bronca que levaria quando chegasse em casa. Com que cara eu voltaria pra lá? Eu não vou pedir desculpas novamente, simplesmente me recuso. Pena que eu não tenho pra onde fugir. Não tem problema, eu ainda tenho meu consolo.
Como sempre, ele chegaria arfando devido à sua corrida diária para não se atrasar... essa cena não demorou muito para se repetir.
- Desculpem a demora!! - Lance-sempai apareceu na porta, suando, e seus colegas riam.
Ele avisava que o professor faltara e que deveríamos estudar por conta própria. Usava uma bandana verde que impedia seus cabelos negros de caírem sobre seus olhos da mesma cor do pano. ...hã...?
Engraçado, por um instante, pensei que ele tivesse olhado pra mim. Será? Deixei escapar um sorriso. Como Kathelyn me observava, tratei logo de disfarçar, e virei para a janela.
Alguns pássaros cantavam em cima de uma das altas árvores que cercavam o colégio. E o céu está limpo, mesmo que tenha chovido tanto esses dias. Só pode ser um sinal de que vai ficar tudo bem! Um corvo atrapalhava a paisagem, mas os pardais estão em maior número.
Suspirei. Por que ele não olha mais pra mim? Lance-sempai é meu namorado. Isso só faz algumas semanas, mas... parece que foi há poucos minutos que entreguei minha carta de declaração a ele. Foi logo depois de uma partida de futebol, quando ele bebia água. Depois de muito ensaiar em minha cabeça, tomei o máximo de coragem para ir até ele. Era um dos únicos momentos em que não estava cercado pelos amigos. Notou logo minha presença e sorriu. Já devia saber o que era assim que viu o envelope em minhas mãos.
Estiquei bem os braços para entregar-lhe meus sentimentos, como se eu quisesse evitar qualquer proximidade. Ele fingiu surpresa, mas não se mexeu.
- Ni-Nishikasu-sempai... eu g-gosto de você! - que tonta, além de gaguejar ainda teve a voz tremida. - LEIA, POR FAVOR!
Ele pegou a carta, com cara de incrédulo. E fui embora, correndo, deixando apenas um "tchau" inaudível. Pensando bem... isso foi ridículo.
Durante os dois dias seguintes, ele não chegou a falar comigo. Eu já pensava que isso era um fora indireto. A gente não se via muito, o que era muito normal. Lance-sempai é sempre muito ocupado por ser presidente do grêmio estudantil - coisa que ele se tornou um pouco contra a própria vontade. Ninguém sabe direito quem foi que o indicou para o cargo já que ele é bem popular, o fato é que os professores insistiram bastante.
Voltando à história, no terceiro dia após minha declaração, ele apareceu lá em casa. Provavelmente conseguiu meu endereço na secretaria do colégio. Estava um tanto acanhado...
- Bom... sobre... a sua carta... - ele falou, sem jeito. Ele perguntou se estava tudo bem se namorássemos em segredo.
Alegava que se o pessoal ficasse sabendo, poderia haver um alvoroço na escola. Aí viriam os boatos, os professores reclamariam... Pensei que não fazia mal namorar escondido, contanto que estivesse com ele. Eu estava muito feliz.
Fui boba. Não passamos quase nenhum tempo juntos. E ele geralmente só vem falar comigo quando estou com a Kath, pra disfarçar. Pra variar, eu fico morrendo de vergonha, então só fico ouvindo os dois conversarem.
Estou um pouco chateada com ele, sim, mas não foi por nada do que falei antes. É que...
Ugh, lá estão eles de novo. Já que nós três andamos algum tempo juntos, Kath e Lance-sempai conseguiram certa intimidade, e agora já conversam como se fossem velhos amigos. A Kath é extrovertida e muito bonita. Fico imaginando se eu deveria nutrir algum tipo de ciúme por eles andarem juntos.
Quer dizer, tudo bem se espalham rumores sobre vocês dois, mas quando o assunto é "nós", tem que ser segredo, né? Felizmente a razão fala mais alto. Lance-sempai é um rapaz responsável e direito. Se estivesse mesmo interessado na Kath, já teria terminado comigo...
Ele ainda nem veio me cumprimentar, e acho que sei o motivo. Estava um tanto inquieto. Brincava com o chocolate em suas mãos e ás vezes passava um rápido olhar à janela enquanto falava com os amigos (Kath também estava lá). Até que, em um momento:
- Licença, é que eu não tô agüentando esse sol batendo no meu olho... - falou, ao se retirar do meio do grupo.
Então veio em minha direção, e, fechando a cortina, falou baixinho:
- Aikage-san, me procure no intervalo.
E voltou para os colegas.
Uma mensagem simples e direta. Eu já sei do que se trata. É por causa do que ocorreu ontem, no nosso primeiro encontro. Foi uma besteirinha, mas deu pra ver o sentimento de culpa que ele carregou até o fim do dia, mesmo já tendo me pedido desculpa várias vezes. Lance-sempai é mesmo muito bonitinho...
Presa em meus próprios pensamentos, não demorou muito para que o "soar da liberdade" tocasse. Era, enfim, o intervalo. Lance-sempai tinha saído um pouco antes para uma reunião no conselho estudantil. Imaginei se deveria esperá-lo, mas Kathelyn já me puxava pelo braço.
- Vamos logo, Aysel, ou o pão de melão vai acabar!
Por que eu tenho que acompanhá-la até a cantina se eu nem compro lanche lá? Kath anda muito estranha faz uns meses. Foi só ela saber que eu tava gostando do Lance-sempai que começou a grudar em mim! Ela ficava:
- Ah, que bom, então você é normal! Eu até pensava que você não tinha sentimentos! - nada sério.
A cantina estava cheia, como o usual. Uma garota alta (acho que o nome dela é Naname) chegou correndo, e um pouco irritada por estar no último lugar da fila.
- Se essas reuniões do conselho não demorassem tanto... - resmungou ela, para si mesma.
Então a reunião já terminou. Usei qualquer desculpa para me afastar do lugar. Kath ainda tentou me prender lá, que era pra eu guardar um lugar na outra fila enquanto ela comprava a ficha. Depois de alguma insistência, pude me livrar daquele odor de bolos e tumulto.
Falando em bolo, me lembrei que não tive nenhuma festinha. É que ontem foi meu aniversário. Lance-sempai não sabia quando apareceu no ponto de encontro e permaneceu cismado o tempo todo. Ele tinha chegado bem atrasado... e ainda trouxe a Kath junto.
Onde eu deveria procurá-lo? Talvez a quadra de esportes. Ele gosta de jogar no intervalo. Pois bem, fui até lá. Times suados disputavam a bola de futebol. Tentei identificar Lance-sempai no meio deles... a bagunça dificultava bastante. Procurei por uma bandana verde, que não estava ali. Ele não estava jogando...
Olhei pra cima. No céu que antes estava tão azul agora apareciam algumas nuvens.
Tava chovendo muito, e a Kath tinha pedido pra ficar conosco por um tempo. Os dois disseram ter vindo juntos porque...
- Você sabe, né, Aysel, tem um maníaco circulando por aí... dá o maior medo! Eu só pedi para que o Lance me acompanhasse até o ponto, mas tava chovendo muito e então...
Ah! Ás vezes ele fica na sala depois das reuniões para organizar a papelada! Fui até a sala do conselho escolar. As mesas ainda estavam bagunçadas, e os responsáveis nem se deram ao trabalho de apagar o quadro - parece que estavam organizando uma festa para arrecadar fundos pra formatura. Não tinha mais ninguém por lá.
Apertei o crucifixo.
Naquele dia, eu ainda tentei falar pra Kath que não dava... contudo, ela logo tirou da bolsa um presente pra mim. Era a primeira vez que ganhava um presente de uma amiga. Fiquei sem jeito.
Saí da sala do conselho, pensando onde ele poderia estar. Quando ele disse "me procure", ele tava falando sério mesmo. Será que eu devia tentar a sala dos professores? Nisso, duas garotas agitadas passavam por perto.
- Você viu? Você viu? - perguntou a menina de tranças.
- Nossa, o Nishikasu-sempai é mesmo uma gracinha!! - apurei os ouvidos ao ouvir a resposta da outra.
- Ele tava tão lindinho, todo desajeitado, quando foi pra sala dele...
A nossa sala! É claro! O lugar mais óbvio e eu nem desconfiei. Corri até lá.
Já me passou pela cabeça que a Kathelyn pode gostar do Lance-sempai, mas, mais uma vez eu tenho motivos para acreditar no contrário. Mesmo que ela tivesse ficado o tempo inteiro com a gente (eu não achei tão ruim, afinal, sem ela acho que o clima estaria mais tenso), eu não percebi nela nenhum olhar apaixonado.
Se bem que eu não a conheço muito bem. As horas que passamos juntas foram mais gastas falando sobre Lance-sempai do que sobre nós mesmas.
A porta já estava um pouco aberta. Aproveitei a fresta para dar uma espiadela... O tempo estava se fechando. Eu tinha certeza de que eles eram apenas amigos. Que eles não se gostavam de verdade. Entretanto...
A sala estava quieta. Isso, ou o choque me tirara a capacidade de audição. Em cima de uma mesa, havia metade de um pão de melão. Aqueles dois estavam sozinhos. E não perceberam minha presença. Minha presença. Talvez seja algo que nunca tenha tido importância para nenhum deles.
Um vento frio passou por entre as cortinas... e carregava consigo o beijo de Lance-sempai e Kathelyn.
Ela sussurrou, mas eu pude ouvir claramente.
- Você precisa terminar com ela.
...
...
Então foi isso. Apesar de se darem tão bem com as pessoas, ambos tinham problemas para se aproximarem. Kath aproveitou quando soube que eu gostava do mesmo garoto para saber mais sobre ele sem ninguém desconfiar. Incluindo eu. E Lance... só aceitou ficar comigo porque queria ficar mais perto de Kath. Eu fui apenas... um elo... que ajudou a uni-los.
- Aikage...san?
Parece que Lance-sempai finalmente notou que eu estava ali, observando, na porta. Sua boca semi-aberta tentava arrumar palavras para se explicar.
Com todo o resto de dignidade que tinha, esbocei um sorriso. Entrei na sala.
- Não se preocupem, eu já entendi o recado. Desculpem por... ter atrapalhado. - peguei minha mochila e, já sentindo as lágrimas teimando em sair, corri para fora.
Pude apenas ouvir um "Aikage, espera!" do Lance-sempai enquanto eu me dirigia às escadas. Tudo bem, eu não vou contar nada. Nada. O que eu ia ganhar falando a todos que fui só um instrumento?
Não tinha ninguém na portaria, e eu saí, ainda correndo. Eu não queria ficar nem mais um segundo naquele lugar. Talvez alguns poucos alunos tenham me visto. Eu não sei. Na hora, eu esqueci todo o resto. Ninguém mais existia. Eu estava sozinha.
Comecei a desacelerar o passo, até quase parar. Já chega... Puxei o laço do cabelo. De que adianta mudar por outra pessoa? Eu sou tão burra. Deixei o laço aos cuidados do vento, que o levou até o galho de uma árvore. No mesmo galho onde estava o corvo de antes. Devia ter imaginado que você é sinal de mau agouro...
Eu não sabia direito para onde ia. Quando vi, estava caminhando numa rua comprida. De um lado, árvores. Do outro, um muro branco igualmente longo, que acompanhava a calçada até uma esquina.
Nunca estivera lá antes. Mas naquele instante, eu nem pensava nisso. De qualquer forma, eu não tinha pra onde ir. Escola, casa... já não havia lugar para mim aonde quer que eu fosse. Desde o começo...
Ou seja... meu destino? Fica aonde esta estrada me guiar.
Sentia minha garganta seca. Um vazio imenso tomava conta de mim.
Eu não tenho mais família. E agora... não tenho mais amigos, nem namorado. Eu não tenho mais nada. Se eu já não estiver morta, então...
Apertei o crucifixo, e fechei os olhos com força.
Então...
Eu quero... morrer...
Estava frio, mas lágrimas quentes rolavam pelo meu rosto. Será que eu sou uma pessoa tão deplorável... a ponto de não merecer ter alguém ao meu lado?
Levantei um pouco a cabeça e percebi que a rua não estava tão deserta quanto pensei. Um homem estava mais á frente, recostado à parede. Talvez eu não o tivesse visto antes pela falta de atenção... ou talvez... porque ele era tão pálido que parecia se camuflar com o branco do muro.
Parecia adormecido, com olhos fechados. Mas dormir em pé é meio estranho... se bem que no geral ele era bem peculiar. Tinha cabelos prateados muito curtos, com exceção da franja que batia nos olhos. O que era aquilo? Olheiras...? Quase escondiam uma marca embaixo do olho esquerdo; um traço para baixo e outro que se prolongava para o lado.
Limpei as lágrimas com a manga do casaco. Será que minha visão estava muito embaçada? Ou será que tudo isso está me levando à alucinação?
Lábios finos e escuros. Mãos nos bolsos e um pé encostado na parede. Blusa, calça jeans e tênis. Uma feição muito calma...
Sacudi a cabeça. Não é hora para analisar pessoas alheias! Passei direto, tomando cuidado para que ele não ouvisse meus passos. Quem sabe ele fosse alguém perigoso?
Talvez aquele assassino tão comentado? Não, acho que não. Ouvi dizer que ele é muito alto e possui uma cicatriz na testa.
...
Mas...
Essa aparência... eu já vi em algum lugar. Onde... onde? Parei. Tive vontade de olhar pra trás, estava a menos de um metro de distância.
Será que...?
...
É só impressão.
Convencida disso, retomei meu caminho.
- Estava te esperando.
Hã?
Aí sim, virei. Ele me observava com apenas um olho aberto. Um lindo olho azul. Então ele desencostou do muro e veio em minha direção.
- Eu vim te buscar.
Pensei em retroceder.
- Quê...?
Encarando-o de frente, eu me lembrei. Este mesmo olhar penetrante, eu o vi no sonho. Ele era o homem do sonho. Mas ele não sorria como na imagem que eu tinha dele. Pelo contrário, parecia sério.
- Vim te buscar. - repetiu, estendendo a mão.
E ele segurava algo.
"O laço", pensei. Estava com ele.
Perguntas encheram minha cabeça, mas sumiram num instante. Eu não me importo com mais nada. Só quero ir embora daqui.
Da minha família. Da Kath. Do Lance-sempai.
Para bem longe.
E sem perceber, minha mão estava lá, segurando a dele, e as duas juntas prensavam o laço azul...
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