| just endless - ch.02 |
II. Casa das Ilusões
Lilás.
Era uma casa simples, diferente do que eu imaginava. O tom roxo desbotado passava uma impressão de antigo. O muro, muito baixo, tinha os cantos invadidos por musgo. O mato estava alto, devido à chuva. A portinhola preta estava enferrujada e possuía uma única tranca. Qualquer um que quisesse poderia entrar naquela casa sem fazer nenhum esforço.
Mas era uma rua erma. As outras moradias encontravam-se num estado inóspito; penso que bastaria tocar em algumas delas para que desabassem.
Meus olhos estavam inchados. Durante o percurso, não pude evitar algumas lágrimas. Ele andava, eu também. Lado a lado. Eu não prestei muita atenção no caminho; para mim seria melhor não saber como voltar. Em certo momento, um corvo... não, AQUELE corvo veio e pousou em seu ombro. "Então foi assim que conseguiu o laço."
Aquela manhã não era diferente das outras: prosseguia silenciosa. Mas isso não me deixava nervosa... parece que caminhar ao lado dele me trazia uma sensação boa, por algum motivo. Quis imensamente que ele falasse algo, mas ele não o fez. Então eu mesma colhi um restinho de energia para fazer uma pergunta descontraída:
- Isso não é uma tentativa de rapto, não é?
Porém, a brincadeira não teve o efeito esperado.
- Você está vindo por decisão própria. - seu rosto estava sempre virado pra frente, firme, de forma que eu só conseguia vê-lo de perfil.
Queria confirmar se era realmente ele aquele homem, mesmo sabendo que eram nulas as chances de haver outro com tal semblante. É que, no sonho, ele parecia bem mais simpático.
- Posso saber seu nome? - arrisquei outra pergunta, temendo levar mais um fora.
Desta vez, ele olhou pra mim.
- Ah sim, perdoe-me, Aysel. - sorriu. - Pode me chamar de Lucien.
É. É aquele sorriso meigo. Não há erro.
- Hm, eu sou... - minha apresentação não se fez necessária. Ele me chamou pelo nome? Como ele sabe? Já nos conhecemos?
Antes que pudesse pensar nas questões com mais profundidade, vi que chegávamos em seu lar. Até que é grande. Dois andares, parece espaçoso. Já é certo que a casa não é dele de verdade. Como as outras da vizinhança, esta também se encontrava abandonada até ele chegar e se acomodar. Certo? Se bem que esta parece ser a única casa bem conservada comparando com as restantes.
Ele tirou a trava e abriu o portão de ferro para que eu entrasse. Logo em seguida, a ave crocitou em seu ouvido. Lucien parecia entendê-lo.
- Aysel, fique à vontade. Eu tenho que resolver um problema e já volto.
- Tá... - respondi, sem pensar direito.
Segurando o portão, sem decidir se entrava, fiquei a ouvir seus passos se distanciarem lentamente. Levei ainda alguns segundos para perceber o havia acontecido. Eu acabei de chegar, e já vou ser deixada sozinha? Peraí, não é isso que eu quero! Virei para trás, na esperança de ainda encontrá-lo. Entretanto, não havia ninguém na rua.
Desapareceu...? Assim, de repente? Senti pingos de chuva, e percebi a impertinente garoa que chegara. Então olhei para o céu. E pude vê-lo de longe. Lucien com duas asas negras planava, já bem distante. Um anjo? Não deve ser. Não pode ser.
Esperei até que só pudesse enxergar um pequeno ponto no firmamento.
Sacudi a cabeça, tentando me concentrar no mais importante. Passei pela portinhola e fechei-a em seguida. Caminhei sobre a estrada de pedras camuflada pelo mato. Subi os dois e baixos degraus e me encontrei frente à porta. Segurei a maçaneta.
Esse último ato me trouxe um flash de pensamentos rápidos, me fazendo entrar num dilema. Pensei na escola, no perigo, na preocupação que poderia causar. Mas foi só lembrar daquelas pessoas que pude adentrar a casa sem hesitar.
E a primeira coisa que pude ver... foi uma parede. A porta de entrada dava direto no meio de um estreito corredor. Á direita, creio que haja um quarto, mas estava um tanto escuro para que eu pudesse confirmar. Fiquei com receio, e me dirigi à esquerda, onde, virando á direita no final do corredor, eu pude encontrar uma sala.
Um cômodo bastante grande. Havia uma janela. Em um canto, uma bela poltrona negra com detalhes prateados. Em outro, uma mesinha de xadrez acompanhada por uma cadeira aparentemente confortável, ambas de madeira. Um lugar tão grande pra tão poucos móveis...
Havia outro corredor bem em frente, um tanto menor que o primeiro. Resolvi explorá-lo. Ao atravessar a sala, me deparei com outra entrada à direita, onde havia uma escada. Será que subo?
- Lucien. - ouvi uma voz vindo do primeiro corredor. Havia mais alguém aqui? - Você sujou o chão de terra de nov...
Interrompeu a fala ao chegar na sala e ver que se enganara. Perplexo, lá estava um homem tão normal quanto Lucien. Vestia-se como um mágico, com uma espalhafatosa fantasia vermelha, tinha cabelos loiros que iam até o queixo. Os olhos verdes eram um tanto quanto apavorantes. E eu não poderia deixar de notar a tatuagem de teia sobre o olho direito, com três pedrinhas brilhantes alinhadas embaixo, sobre uma das linhas da teia. E fazia tempo que eu não via uma cartola assim...
Pareceu bem espantado.
- A senhorita é...?
- Aysel Aikage. - respondi, cumprimentando.
Então abriu-se uma porta à esquerda do corredor que eu ainda não havia visto.
- Horus? - perguntou o homem que de lá saíra.
Esse usava uma capa negra. Usava aqueles colares de spikes (talvez um metaleiro?), tinha o cabelo arrepiado preto, cujo "rabo" era beeem comprido e estava preso atrás, e uma mecha mais curta caía sobre o lado direito de sua face. Os olhos também eram negros. Era ainda mais pálido que Lucien. Ele não pareceu tão surpreso.
- Está perdida?
- Não. Lucien me trouxe até aqui. - espero que a sinceridade não me traga mais problemas.
Os dois se entreolharam.
- Deve ser mais um dos amigos dele. - disse o metaleiro, não se importando.
- Mas é a primeira vez que ele tenta trazer uma garota... - falou o mágico. - E eu achava que ele jogava no outro time...
- ...e quanto a Li? - perguntou o metaleiro.
- A Li não vale. Imagino que dessa vez Kronos realmente vá se zangar.
E agora? Lucien, volte logo. Desse jeito, começo a pensar que estou incomodando.
- Perdoem minha chegada repentina. - falei, tentando aliviar o peso.
- Pra onde ele foi? - perguntou o mágico, referindo-se a Lucien.
- Não faço idéia.
- Aproveite a estadia. - foram as últimas palavras do metaleiro antes de voltar para o mesmo quarto de onde viera.
- Angus!
O outro pareceu desgostoso com a atitude do amigo. A situação de ter sido abandonado com uma garota desconhecida era mesmo desagradável, mas eu também não estava nas melhores condições para me socializar. Eu sei que deveria estar me sentindo pior. Sei que deveria estar insegura e chorando à beça. Sei que eu deveria estar com medo.
Eu sei. Eu sei.
Mas... eu não manipulo as minhas emoções. Só estou confusa.
- Tsc. - o mágico estava mesmo irritado. - Lucien deveria parar com essa mania de...
Ele resmungava para si e cada vez mais eu achava que não era bem-vinda neste lugar. Minha mochila pendia no ombro direito, e eu a pus de volta nas costas, já pronta para o caso de expulsão. Ele se acostou na mesinha, e tirou um baralho do bolso. Brincava de fazer alguns truques, e percebi que fazia isso por hobby e não por exibicionismo. Fixava as cartas e não desviava o olhar para ver minha reação. Alguns de seus números eram muito rápidos para eu que eu pudesse ver o que acontecia.
Percebeu que eu observava.
- Então... a senhorita o conhece há muito tempo? - perguntou, tentando puxar assunto.
- O Lucien? Na-não... quero dizer... pra ser sincera, não posso te responder com muita precisão.
- Hum. E já sabe quanto tempo vai ficar por aqui?
Deixei um riso escapar. Que indireta...
- Pelo jeito, não vai ser longo. - falei meio baixo, não querendo que ele ouvisse.
O mágico derrubou uma carta quando terminei de falar, pelo visto ele escutou.
- Ah, não, não. Eu não quis ser rude. É que Lucien tem esse péssimo costume de trazer gente para cá sem nos consultar e Kronos-sama já não está muito feliz com essas decisões dele...
Kronos... sama? Deve ser alguém importante. Talvez seja o metaleiro...
- Será que é melhor eu ir embora, então? - perguntei.
- É que sua permanência nesta casa pode acarretar em problemas para Lu-...
- Desde quando se preocupa comigo, Mistério?
Não tinha ouvido a porta abrindo. Lucien havia chegado. Ele veio até a sala.
- Quando vai aprender a limpar os sapatos antes de entrar? - foi o primeiro comentário de "Mistério".
- Não é culpa minha. Não temos carpete e por acaso não é você que limpa a casa. - disse, sarcástico.
- Mas ter algum zelo da sua parte não seria nada mau.
Lucien desconsiderou a última fala de Mistério e se dirigiu a mim.
- Sinta-se à vontade, Aysel. Espero que não se incomode de dividir a casa conosco.
- "Conosco" quem? - perguntei, querendo saber, afinal, quantas pessoas havia naquele lugar.
- Mistério e Morpheus, meus dois queridos irmãos, e eu.
Não são nada parecidos. Tive a impressão de que, se eu dissesse isso, certamente me agradeceriam.
- Er... mas... eu posso mesmo ficar aqui? Sem saber suas regras ou costumes?
- A única regra que eu te imponho é que não entre no quarto de ninguém.
Depois disso, ele já se virava para ir ao corredor da sala, quando Mistério o chamou.
- Como assim?! Você decide tudo sem nos avisar nada? - esse cara realmente não quer que eu fique.
- Eu o informei semana passada que iria trazer alguém para cá. Você teve exatos cinco dias para me questionar sobre isso. Agora, creio que não lhe devo nenhum explicação. - Lucien mantinha aquele sorriso cínico no rosto.
Mistério pareceu forçar um pouco a memória.
- Eu não me lembro de você ter falado nada a respeito.
Lucien também fez cara de quem buscava uma lembrança.
- É, talvez eu não tinha dito. - indiferente, dirigiu-se ao tal corredor. Não vi direito aonde fôra, fiquei observando a expressão de Mistério.
Demorou um pouco para sair do estado de choque. Balançou a cabeça e falou:
- As atitudes dele são mesmo inacreditáveis...
E então voltou-se para mim.
- Desculpe-me, será que podemos nos apresentar direito? - sua face tornou-se gentil. - Eu sou Mistério Amunet Dionysus.
- Aysel Aikage.
- Estou honrado em conhecê-la... - ele pegou minha mão direita e curvou-se para beijá-la, como um perfeito cavalheiro. - ...Aikage.
A última palavra ele proferiu após seus lábios tão finos tocarem minha pele. Foi um toque gracioso, que me fez corar a face. E o vermelho deve ter se tornado rubro quando vi que ele havia colocado uma rosa entre meus dedos.
- Seja muito bem-vinda à Casa das Ilusões. - ele falou, contradizendo tudo o que havia dito anteriormente.
Casa das Ilusões...
- Uma casa com um nome... é mesmo bem diferente. - respondi, brincando com a rosa em minhas mãos.
- Tenho certeza de que a senhorita presenciará muitas coisas "diferentes" de agora em diante. Mas não as evite. Anseie-as.
Sorri. Uma certeza que também era minha. Mas eu não estava com medo. Pelo contrário, estava mesmo ansiosa. Aquele sentimento depressivo que tomava conta de mim foi esquecido. Naquele momento, eu era embalada pelo doce aroma da rosa e acolhida pela estranha Casa das Ilusões.
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