la belle et la bête - ch.03

3. huchotements

      Shawn III era um homem de grande influência, muito rico e poderoso, graças à herança da família. Sempre fôra alegre e vivaz, mas naquele dia não se apresentava muito feliz...

      - Ele recusou?! - perguntou, mexendo na barba mal-feita.

      Nosso amigo aristocrata estava lá mais uma vez.

      - Sim, senhor. Mas a pretendente também não era das melhores, creio que estava mais interessada nos bens materiais que poderia desfrutar depois do casamento. ^_^"

      Seu patrão, de terno, passou a mão nos cabelos grisalhos e compridos, não escondendo o estresse. Apesar de ainda manter uma forma jovem e robusta, era possível reconhecer os traços da inevitável velhice.

      - Não é muito fácil encontrar garotas dessa idade que possam ajudar a manter a linhagem e meu filho ainda piora a situação. ù_û - e ajeitou o monóculo. - Felizmente eu imaginava que ele fosse rejeitar a mocinha e preparei um plano B. >)

      Youji se mostrou curioso e escutou tudo atentamente.


      - Riese-chan! ^.^ - a raposinha saudou a amiga que passava pelos portões do colégio. - Você demorou!

      - Não reclama, vermelhinha, olha que hoje eu saí mais cedo! x] Ufa, ainda bem que nas provas finais a gente pode ir embora assim que acaba de fazê-las. ^_^/ - Riese fez um sinal para que a raposa a seguisse.

      - E como você foi? n.n - perguntou, caminhando ao lado da garota de tranças.

      - Humm, tinha uma questão que não entendi muito bem, mas o resto até que estava fácil.

      - Então, Riese-chan! - Maya correu na frente. - Para o bosque! ^0^

      - Para o bosque! ^__^ - repetiu Riese, correndo atrás.

      Ao contrário das outras pessoas, Riese não tinha medo algum de ir ao bosque por ser ligado à Ziarre. Para ela, o lugar nada tinha de assustador e era o local favorito de suas brincadeiras.

      - Ainda bem que Riese-chan é uma garota corajosa! Eu não gostaria de ficar sempre no vilarejo, é um lugar muito fechado pra mim. .-.

      - Ah, Maya, é que as árvores daqui são exatamente iguais às outras. Então é prova de que não há perigo!

      - O que as árvores dizem pra você? O.o

      - O de sempre... "quero água", "quero luz", "quero sombra". ~__~

      Maya riu.

      - São das árvores de Ziarre que tenho medo... - continuou Riese. - Eu não consigo ouvi-las. >_<

      - Riese-chan é muito estranha. Você consegue ouvir árvores e animais.

      - Mas só consigo escutar poucos bichos, e quase nenhum me entende. Você foi a primeira, sabia?

      - Quem sabe seu poder ainda esteja se desenvolvendo!

      Riese descobriu que podia fazer isso ainda muito pequena. Ela nunca contou isso pra ninguém, pois sua mãe começou a ignorá-la assim que descobriu. Temia que as outras pessoas pudessem ter uma reação parecida.

      - Ah, seria ótimo se as árvores me entendessem e tivessem boa memória! Aí a escola certamente teria sido muuuito mais fácil.

      - Ei, Riese, isso é cola, não é? Ha, ha, ha! ^.^

      - Vermelhinha, eu só vou contar até 10, viu? - Riese se apoiou numa das árvores.

      - 20! Senão não tem graça!

      - Uuuum, doooois...

      - 20, viu, Riese? - repetiu a raposa, enquanto saía correndo.

      Por quanto tempo conseguiria esconder esse segredo? Nem seu irmão sabia, embora tivesse um parecido. Ele nunca contara a mãe porque Riese lhe pedira, mas Kylie não sabia o motivo.

      - ...VINTE! Estou indo, Maya! - gritou Riese.

      O bosque nessa época do ano era um lugar estratégico para se brincar de esconde-esconde. Por mais silencioso que o pegador tentasse ser, era fácil escutar o barulho que as folhas secas faziam ao serem pisadas. Assim, era fácil saber onde ele estava, e o melhor era ter um segundo esconderijo por perto.

      Riese sabia disso, mas também sabia que Maya era uma raposinha muito ansiosa. Ao ouvir os passos de Riese, já corria para uma toca mais próxima. Então o segredo era não disfarçar e ás vezes até chamá-la para provocar. Logo ela sairia...

      Tlec, tlec.

      - Ahá, Maya, já te achei!

      Ela seguiu o som, mas o animal começou a correr.

      - Maya, não adiantaaa! - Riese correu atrás, não tendo muita certeza de onde a amiga a levava.

      Até que ela chegou na linha-limite que separava o bosque de Ziarre. O bichinho também parou, mostrando ser apenas um rato selvagem. Riese não poderia estar tão longe... só corrêra por pouco tempo, e o bosque era imenso.

      - Tudo bem, tudo bem, eu já te mostrei o atalho, agora pare de me seguir. >.< - disse o pequeno roedor.

      - Não, eu...

      O ratinho voltou ao bosque. Riese pensou em segui-lo, mas ele havia sumido no meio das folhas.

      - E agora? Como vou voltar?

      Enquanto estudava aquele lugar tão temido...

      - Riese...

      Ela virou e ficou procurando quem havia falado.

      - ...Maya?

      Tinha sido mais como um sussurro. Depois de alguns segundos, ela ouviu de novo. Uma voz baixa e distante. Que se duplicou, e triplicou, e em pouco tempo eram milhares.

      Ela não compreendia o que diziam, mas aquele barulho em sua cabeça a assustava. E Riese começou a se desesperar.

      - Chega, parem...

      Não atendendo ao pedido da garota, os sussurros continuavam a se multiplicar. E estavam aqui, e ali, e em cada canto que imaginasse.

      Ela caiu de joelhos e tampou os ouvidos, gesto que não parece ter adiantado de nada.

      - Chega, por favor...

      E prosseguiam. Alguns pareciam chamar seu nome. Ela fechou os olhos com força, querendo que não passasse de um pesadelo...

      - PAREM!

      As vozes cessaram. Riese levantou a cabeça para procurar aquele que as espantou. Deparou-se então com um belo rapaz de cabelos negros.

      - Pff. - ele passou um rápido olhar a Riese e voltou à Ziarre.

      Riese ficara petrificada.

      - Rieeeese-chaaan! >.<

      A garota olhou pra trás e a raposinha pulou em seu colo. Riese percebeu que a amiguinha trouxera um companheiro: carregava o ratinho pelo rabo.

      - Perdão, moça. ._. Achei que você fosse mais um dos que me perseguem só pra saber o atalho.

      Riese encontrara um segundo animal que a entendia.

      - Ah... o_o" atalho? Mesmo sendo atalho, chegar tão rápido é impossível. x__x"

      - Boku-chan me contou... - falou a raposa. - O bosque é encantado para que pareça maior. o.o Assim tem menos perigo de invadirem Ziarre... esse caminho que passamos é o único não atingido pela magia. >.<

      A garota pegou o roedor com as mãos.

      - Boku-chan, não é? - perguntou ela. - Você... conhece bem a floresta de Ziarre?

      - Mais ou menos. Já fui até lá várias vezes, mas não é nada agradável! >.<

      Riese se levantou. Era melhor saírem logo dali antes que as vozes voltassem. Enquanto caminhavam, ela contava o que aconteceu.

      - Então, Boku, você sabe de algum garoto assim? Ele estava com um casaco negro, com a estampa de uma grande cruz branca.

      - Eu nunca vi nenhum humano nas vezes que estive lá. o.o - contou o ratinho.

      - Hmm...

      Na saída do bosque, Riese se agachou e deixou o novo amigo no chão.

      - Viremos brincar aqui mais vezes! ^.^ - disse Maya, sempre animada. - Você podia brincar com a gente.

      - Está bem. ^;^ Até mais, Riese-san! Maya-san!

      - Tchau! - acenaram as duas.

      Tiveram de se separar no meio do caminho: Maya tomara o rumo para voltar para a toca. Enquanto Riese voltava para casa, viu Kylie vir em direção à ela.

      - Sabia que estaria aqui. :]

      - Ah, Kylie, que bom. Eu tenho que te perguntar uma coisa...

      - Sim? O.o

      - Quando você vê espíritos... como eles são?

      - Ééé... - ele coçou a cabeça. - Alguns eu vejo com muita nitidez, como se fossem pessoas de verdade, a diferença é que ninguém mais consegue vê-las.

      "Quem sabe eu seja um espírito... pra mamãe me tratar assim.", pensou Riese. Mas sabia que não tinha nada a ver, senão os outros também não e enxergariam.

      - Outros são meio transparentes, e ainda tem aqueles que só vejo um fiapo. Eles realmente não parecem ter nenhuma vida. Ou ficam parados demais, ou fazem movimentos muito mecânicos.

      - O que eles geralmente falam? O_o

      - Nada. o__o" Poucos abrem a boca, e ainda falam coisas sem sentido. Ficam repetindo frases, amaldiçoando gente, chamando por alguém...

      - Você... você acha que tem espíritos em Ziarre?

      Ele pensou um pouco.

      - Mana, você foi até lá? o_o

      - Ah? Eu?! Como? ò__ó""'

      - É, deixa. >_< Não daria para ir e voltar em tão pouco tempo.

      Riese odiava mentir pro irmão, mas sentia que devia manter isso em segredo.

      - Não sei, não. - falou Kylie. - Tem uma presença lá que me intriga. ù_u

      - Que tipo de presença? o.o

      - Sei lá. x_x Mas tem uma força de repulsão lá... pras pessoas ficarem com tanto medo... deve ter alguém fazendo isso.

      "Será que...?", Riese imaginava se podia ser o garoto que encontrara. Mas seria mais lógico se fossem os responsáveis por aqueles sussurros. "Espera aí! Aquelas vozes podem ser só mais uma barreira, um obstáculo para que não cheguem em Ziarre!"

      - É isso!! O_O

      - M-Mana? o_o"

      O que estavam escondendo em Ziarre? Será que as árvores mudas também tinham algo a ver? Riese estava decidida a descobrir.

      Ela só deixou de divagar quando notou um olhar de surpresa no irmão. Riese virou a cabeça para ver o que Kylie olhava com aquela cara.

      Em frente à casa deles, estava um carro. Uma limusine preta (porque quando é chique é isso o_o). As pessoas que passavam por perto comentavam. Afinal, não era muito comum um automóvel circular na vila.

      Será que algo grave aconteceu? Então tinham que se apressar. Mas Riese mal deu um passo à frente, e Kylie a segurou, ainda mudo e fixando o olhar na casa.

      Viram a porta abrir. A mãe e mais duas pessoas, um homem e uma mulher, saíram. Nunca tinham sido vistos por lá antes. Os dois vestiam um terno preto... devia ser algo importante mesmo.

      Eles conversaram um pouco com a mãe dos gêmeos antes de entrarem no carro. A mãe esperou a limusine ir embora para voltar ao lar.

      - Kylie? Kylie? - chamou Riese.

      O garoto de gorro piscou algumas vezes ao ouvir a irmã. Ele olhou pra baixo.

      - O que aconteceu, Kylie?!

      - Tinha... alguém lá...

      - ...? É lógico que tinha, aqueles dois agen-...

      - Não! Era um espírito, estava parado lá entre a porta de casa e a do carro, e ele tava observando tudo, movendo a cabeça devagar de acordo com os movimentos daquelas duas pessoas... e... quando se foram... sumiu... - ele engoliu em seco.

      - Mas... você sempre vê espíritos... isso é normal.

      - Não é, mana! - ele a tomou pelo braço e seguiam para a casa. - Eu senti que ele tinha algo a mais. Eu percebi que era muito diferente dos outros... escuta, eu não consigo explicar. Só que eu SEI, entende?

      Assim que os dois irmãos entraram, foram até a mãe. Ela estava cortando alguns vegetais para a sopa.

      - Mãe, quem eram eles? - perguntou Kylie, sempre direto.

      - Ah, ninguém importante. Pega duas batatas pra mim?

      - Eram importantes, sim! Quem eram?

      - Uns agentes do governo. Vieram fazer umas pesquisas pra saber se tá tudo em ordem.

      Kylie insistia, mas sua mãe sempre se esquivava das perguntas. E acabaram sem obter nenhuma resposta convincente.

      Riese foi dormir com uma questão batendo à cabeça: será que tinha alguma relação com ela ter chegado perto de Ziarre? Podiam ter câmeras escondidas, Ziarre poderia ser um ponto de encontro secreto... e cada vez mais essas dúvidas a intrigavam.

      A raposa já a esperava do lado de fora, na manhã seguinte. Estava animada como sempre, apesar do ocorrido do dia anterior.

      - Riese-chan, agora que você tá de férias, podemos brincar o dia todo! ^.^

      - Vermelhinha, hoje... ^^" - falava Riese, enquanto fechava a porta. - Nós vamos para Ziarre.

 



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